quinta-feira, 11 de março de 2010

VIDA DE GADO II - A MISSÃO No episódio anterior, nosso herói( ou seja, eu mesmo) conseguiu entrar sorrateiramente nos domínios de um dos templos mais representativos do capitalismo selvagem, incólume. Conseguirá se desvencilhar das armadilhas burocráticas e cumprir sua missão a contento? Ou se renderá ao poder econômico avassalador que emana daquelas paredes hoje frias e cruéis, dantes, enquanto Bio”s Bar, os odores que se misturavam, provinham das batatas fritas, feijoadas, cervejas e cachaças mil? É o que veremos a seguir no segundo episódio da saga deste humilde “Homo Brasiliensis sanroquensis não tão sapiens como gostaria” Ultrapassada a barreira da porta às vezes giratória, vou direto à cestinha de acrílico e recupero os meus objetos. Seguindo as instruções recebidas, subo ao andar superior, onde antes, como já falei, era o salão do São Paulo Clube. No chão, no lugar dos confetes e serpentinas, um carpete cinza. Na parede, também cinza, no lugar das alegorias de carnaval, banners de acrílico, com fotos de gente feliz, rindo e incitando : COMPRE ! FINANCIE ! GASTE! INVISTA!!!!!! No salão, nenhum Pierrot e nenhuma Colombina. Alem dos clientes( muitos) só funcionários(poucos) alinhados e sorridentes, atrás de seus monitores de LCD. Não é culpa deles, mas hoje em todo lugar que você vai, seja consultório médico, agencia do correio, lojas, etc. o funcionário está sempre atrás de um monitor. Eles conversam com você, mas não desgrudam os olhos da tela. Após alguns muitos minutos, fui chamado pelo nome, sentei-me e fui respondendo as perguntas, enquanto o funcionário digitava,digitava, parava pensava, digitava de novo e “voilá” me instruiu a descer ao térreo( lá onde serviam caipirinhas antigamente). Sou péssimo de cálculo, não tenho nem idéia do tamanho do saguão onde ficam os caixas, mas sejam quantos hectares, acres, metros quadrados, sei lá forem, sem dúvida ele é imensamente pequeno para o numero de gado, opa, de clientes, aguardando em fila, em pé, pelo atendimento. E tem uma marcação no chão, em forma de labirinto, que você tem que seguir. Caixas, até que tem uns 5 ou 6. Mas caixas de carne e osso atendendo, só três. Um, exclusivo para FGTS e PIS. Outro, preferencial, para idosos , pessoas com crianças de colo ou gestantes. (por falar em gestantes, vocês notaram que eu abri um parênteses aqui. As mulheres dizem que a pior dor do mundo, é a dor do parto. Acho que elas falam isso por que nunca levaram um chute no saco. Por falta de parâmetros, eu considero isso um empate técnico. Fecha parênteses. Ui!!!!!). Como meus filhos não estavam à mão para que eu pudesse carregá-los, coisa que aliás, hoje eu nem conseguiria, não estou em estado interessante e no quesito idade, estou no limbo, isso é, não sou adolescente, nem criança e ainda falta um ano para virar idoso, fui para a fila dos comuns dos mortais, se é que podemos chamar de comuns aqueles boys, com uma pilha de documentos na mão para serem autenticados. Será que eles nunca ouviram falar na internet, não? Bom, se eles estavam lá, é por que o que eles tinham que fazer, não dava para resolver pela internet. Como eu. A minha fila, com umas 30 pessoas, serpenteava pelo labirinto marcado no chão e às vezes, desobedientemente, o rabo da serpente, composto por umas 5 pessoas, saia da marcação e encostava na parede lateral, para descansar. Lá vinha um segurança e impondo ordem recompunha a forma unida. Por enquanto eles ainda não estão usando aquele aparelhinho que eu não sei o nome, que dá choque e convence o boi a entrar na fila do abate. Ainda bem. Um senhor, lá na outra fila, a dos idosos começa a sangrar pelo nariz. Um segurança o acompanha até o banheiro, de onde eles retornam após alguns minutos, ele segurando um chumaço de papel higiênico no nariz, de volta à fila. Notei que na agência não tem nenhum relógio. Parece que antigamente todas as agências tinham relógios nas paredes! Comecei a pensar e realmente não lembro de ter visto mais relógios em nenhuma agência bancária! Pode ser coincidência ou até impressão minha, mas será que eles desapareceram depois que foi aprovada a lei que limita a espera na fila em quinze minutos? Sei não. Após uns 50 minutos na fila, quando aquele órgão supra citado, que é hipersensível a chutes, boladas e joelhadas já estava na meia, meu celular tocou. Atendi gentilmente, como é de meu feitio( às vezes), mas não consegui nem falar alô direito, dois seguranças vieram pra cima de mim me obrigando a desligar e mostrando os cartazes citando a lei municipal que proíbe o atendimento de celulares dentro das agência bancárias. Desliguei e não muito gentilmente, como é de meu feitio ( às vezes) soltei a matilha canina em cima dos seguranças, cobrei o fato de não haver NENHUM cartaz com a lei dos 15 minutos de espera, enquanto haviam pelo menos 8 cartazes com o enunciado completo da lei dos celulares e uns 4 da proibição de fumar, além de cartazes pedindo ajuda para os desabrigados do Haiti, outros oferecendo cadernetas de poupança, previdências, seguros, etc. Eu tava sem fumar a quase 80 minutos, pô!!! Aí, tal e qual um Martin Luther King tupiniquim, fiz um discurso, só que ao invés de um sonho, parecia que estava tendo um pesadelo. Falei da falta de relógios, do senhor que foi “atendido” com um chumaço de papel higiênico, dos lucros exorbitantes que os bancos brasileiros conseguem ( eles mesmos se gabam de serem dos mais rentáveis e sólidos do mundo! Também, pudera, com o “spread” que a nossa legislação permite que eles cobrem). Falei que presidiários ligam à vontade, fazem ameaças, chantagens e terrorismo contra o cidadão diariamente e ninguém consegue impedir!!! E devo ter falado mais um monte de abobrinhas, que nem lembro mais. Dos mais ou menos 60 bovinos confinados no saguão, uns três ou quatro me aplaudiram, uns 10 fizeram sinais de aprovação com a cabeça, os demais permaneceram impassíveis. E voltamos todos, a nos concentrar na fila, preocupados em não pisar fora da faixa marcada no chão. Mais bovinos do que nunca.

4 comentários:

  1. Sr. Niney,

    Texto muito interessante...adorei!!!

    Um super beijo.

    Bruna

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  2. Niney ...
    Leio sempre seus textos ... muito 10
    Abraço: Luciano (Lullão)

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  3. Muito bom tio, vc é especial, uma fera, um gênio, me orgulho em ser seu sobrinho!
    Ruy

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  4. Niney.. cade seus textos... sempre entro aqui esperando novidades...
    abs... lullão

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