terça-feira, 9 de novembro de 2010
EQUITAPANAPETECA
EQUITAPANAPETECA -
Conforme prometi, vou tentar resumir mais alguns fatos ocorridos na pescaria descrita pelo Ruy, no Paraíso dos Dourados,(vide post de 16/10)quando demos um "olé" nos famosos "Botas Brancas".
Eu, apesar de já meio "enferrujado", me considero um pescador experiente e bem "rodado".Afinal, participei de muitas pescarias no Pantanal, em riachos, lagos, sítios, alto mar, beira mar e até em quermesses da igreja(manja aquelas piscininhas de plástico, com peixes idem, com uma argolinha nas costas?)
Pois é. Mas, não é conversa de pescador, até hoje não entendi a conduta dos peixes, de qualquer espécie. Essas histórias de "lua certa", água muito fria ou muito quente, tipos de iscas, etc. Mas que eles devem seguir certas "regras", isso devem. No caso dos famosos dourados do Barranco Limpo, por exemplo. Se me contassem, eu não acreditaria que, em pleno Rio Paraguai, com centenas de metros de largura, houvesse um determinado lugar em que só podia "apoitar" um único barco com chances de fazer os arremessos com sucesso. Mas foi exatamente isso que aconteceu. Tanto que, nós estávamos em dois barcos e ficamos revezando a posição dos barcos, para que todos tivessem a oportunidade de pegar o dourado. O barco que estava fora de posição, podia fazer quantos arremessos quisesse, nem beliscava. Conforme nossos piloteiros já haviam adiantado, essa pescaria só seria produtiva entre 1 e 3 horas da manhã. Quer dizer que os dourados tem relógio e seguem um horário rígido? Pois é. Não deu outra. Segundo eles, você poderia ficar o dia inteiro no Barranco Limpo que não veria a cara de nenhum dourado! E talvez a semana que vem, nem mesmo nesse bat- horário, nesse mesmo bat-local,com as mesmas bat-iscas.Por falar em iscas, lembro que as primeiras pescarias de Pacú, só davam resultado com umas bolinhas de farinha misturadas com Q-Suco(aquele pozinho) sabor morango ou com uma frutinha que esqueci o nome, lá da região mesmo.. Alguns anos depois, voce podia jogar a fábrica do refresco em pó ou árvore da frutinha dentro do rio, que os tais de pacús fingiam que não era com eles. Só queriam uns cascudinhos, ou uma tuvirinha e talvez até umas pirambóias, desde que pequenas. Nos últimos anos, nem isso. o fino e exigente paladar dos cobiçados e requintados nobres seres aquáticos só aceitava delicados e saborosos caranguejos.
Bem,mas às 3 hs da manhã, como o Ruy descreveu, depois de embarcar vários exemplares, resolvemos voltar para nosso aconchegante biguazeiro, onde a esquadrilha de muriçocas,pernilongos, e outros seres alados e picantes, devia estar ansiosa à nossa espera.. Noite perfeita. Sob a luz de uma lua maravilhosa e quatrilhões de estrelas, empreendemos a viagem de volta, rio abaixo. Aqui, sou obrigado a abrir um parênteses para louvar não só os nossos, mas a todos os piloteiros, que parecem ter um GPS embutido na cabeça, pois apesar das quinquilhões de estrelas iluminando o Pantanal, para chegarmos ao Barranco Limpo, entramos em pelo menos três corichos, que apesar de imensos e caudalosos, são simples "filiais" do Rio Paraguai e mudam de acordo com a cheia ou vazante, além de suas entradas ficarem escondidas no meio da mata.
Satisfeitíssimos com o bando de dourado dentro dos barcos, Vinicio e Ruy no barco da frente, sob o comando do Biguá, eu e Spencer no barco de trás, pilotado pelo Batata.
De repente, não mais que de repente, o som do motor aumenta, e o barco quase que breca.
O Batata imediatamente desligou o motor e o levantou. O que foi, o que não foi? Perdemos a hélice. Ah bom, e daí? Spencer com seus olhinhos mais arregalados do que nunca, sentenciou:
Estamos à deriva!. Ao longe, só ouvíamos o motor do barco da frente se afastando, ligamos os faroletes, demos sinais de S.O.S. de P.Q.P, gritamos, xingamos em código morse, até em linguas mortas e nada. Biguá seguiu altaneiro e insensível aos nossos apelos em direção ao conforto do biguazeiro e dos famintos pernilongos. Eu não lembro se nosso motor de popa era Honda, ou Yamaha,quantos HPs, mas tínhamos a impressão(certeza) que o Revendedor Autorizado mais próximo, fosse a marca que fosse, ficava a milhares de Kms, ou milhas náuticas no caso, do exato ponto onde estávamos. Como disse o Spencer "à deriva". E nesses barcos não tem "estepe".Nessa hora, passamos a palavra ao nosso Almirante "Potato"( foi promovido na hora, por unanimidade).
"Vamos encostar numa prainha e dormir. Amanhã o Biguá vem nos socorrer". "Yes, Sir"
Com os faroletes localizamos uma praia, e na base do remo, encostamos a embarcação. Mas não chegamos nem a atracar. O vice-Almirante Batata( rebaixado por mérito) falou: Ih! Aqui tem muito jacaré bravo. Devem estar com filhotes! Vamos embora! Na primeira rabada dada no barco, concordamos:
"Yes,Yes,Yes,rápido,Sir"
Rio abaixo, mais uns 800 metros, outra prainha, outra atracação, nada de jacaré. Ótimo. Ótimo, nada. Depois de 5 minutos, escutamos um rugido. O grumete Batatinha(mais rebaixamento) diagnosticou: "Deve ser onça. Temos que sair daqui urgente!" . Já fui pegando o remo decidido a bater o recorde mundial nos 800 m. rio acima de volta ao aconchegante e hospitaleiro ninho de jacarés.O Spencer já estava calculando se o seu fôlego agüentaria nadar até Corumbá.
Foi aí que o Batata, com bom senso reassumiu seu posto de piloteiro e decretou:" O melhor é ficar bem no meio do rio, descendo, só usando o remo como leme.E lá no meião, não tem nem muito mosquito" Palmas!! Muitas palmas. Eu até revezei com ele no leme, pra ele descansar. E fiz questão de acordar o Spencer para assistir um dos maiores espetáculos da Terra: o amanhecer no Pantanal. No meio de um coricho fantástico,o silêncio na sua mais pura essência, com todos os barulhos que só a natureza pode nos oferecer.
Como todo bom filme, pula a cena para a chegada do outro barco ao Rancho do Severino, o famoso " Paraiso dos Dourados", o preferido de 9 entre 10 muriçocas pra um rápido lanchinho.
Desce tralha, desce peixe, devidamente limpos e postos no freezer, nada do nosso barco chegar. Tres ou quatro Brahmas de Agudos depois, a preocupação do Ruy e do Vinicio começa a aflorar. "Devem ter parado para fazer xixi" ." Pela demora, dever ser cocô". "Eu não vi nenhuma zona no caminho".Lá pelas cinco e meia da manhã, a preocupação virou aflição dos dois companheiros. " O que será que aconteceu?". "O que vamos fazer"?.
Mesa de gerenciamento de crise montada, decidiram que o Biguá voltaria, após abastecer o barco, junto com o Ruy, enquanto Vinicio, considerado mais diplomático e persuasivo, acionaria a gerencia do pesqueiro e se necessário fosse até a Marinha em Corumbá. A essa altura o "Paraíso dos Dourados" tava mais pro "Inferno de Dante", principalmente depois que informaram ao Vinicio que a chave da lancha de resgate, mais potente, ficava sob a guarda do gerente, que estava repousando,merecidamente, a essa hora da manhã. "Diplomática e sutilmente" o nosso "Chumbada", após uns três ou quatro chutes na porta, "convenceu" o gerente a iniciar o expediente mais cedo e acionar o esquema de emergência, com a tal de lancha.
Corta para os náufragos, rodando rio abaixo. Ouvíamos bem ao longe, o barulho de motores de barcos, que estavam saindo para a pesca, e o Capitão( pequena promoção) ia traduzindo: " Não é o Biguá, esse é um motor 15, e o dele é 8" Não sei nem se eram essas as potencias, mas ele reconhecia, pelo ronco, a potencia dos motores ao longe. Devo frisar que estávamos em um dos corichos, que cortavam caminho até o Barranco Limpo, onde os dourados não davam as caras durante o dia e portanto NINGUÉM iria passar por ali naquela hora da manhã.E meu cigarro tava acabando. Saímos à socapa na noite anterior, e além de nós, só os Bota Brancas nos viram lá e saberiam onde poderíamos estar. Então, nossa única esperança era o bom e velho Biguá. Cujo motor a certa altura o Comandante Batatão reconheceu, inclusive afirmando o momento que ele tinha saido da calha do Rio Paraguai e entrado no coricho onde estávamos!Quinze minutos depois,ponto para ele, chegam Biguá e Ruy, este afirmando que veio o tempo todo, enquanto estava escuro, apontando o farolete para a copa das árvores, onde deduziu, estaríamos nós três, após o eventual naufrágio.Lógico que cada um segurando um dourado debaixo de cada braço. Após o alívio do encontro, amarra um barco no outro e começa a viagem de volta.
Ao fazermos a curva do Morrinho, cruzamos com a lancha de resgate, a bordo, lógico, o diplomático Vinicio . Eu e o Spencer, apesar da cerveja e do cigarro terem acabado estávamos bem, mas não tínhamos como comunicar isso, só nos restava realmente, continuar à deriva. Só posso pedir desculpas pela angústia e o desespero que esses dois amigos devem ter passado.
Chegando no pesqueiro, depois de muita risada ,mesmo sem dormir, para decepção dos pernilongos, decidimos pescar apenas ali na frente do pesqueiro, conforme Ruy descreveu, o chamado Pronto Socorro, onde completamos totalmente nossa cota com os pintados.
Essa pescaria, de quatro loucos que mal se conheciam, foi o embrião de um grupo, que chegou a 17 grandes e privilegiados amigos, de inúmeras pescarias, de mais inúmeros ainda churrascos preparatórios e peixadas comemorativas. Loucos, todos sabemos porque. Privilegiados, por termos conhecido,vivido e respirado o Pantanal, em sua plenitude com tão grandes amigos.
Os 17 do EQUITAPANAPETECA, em ordem alfabética:
Carlininho
Iser
João foca
Kiko
Lele
Niney
Paulinho cabeção
Riosão
Riosinho
Rubinho
Ruy
Spencer
Tabajara
Toninho nastri
Vinicio
Ze paulo
Ze ribeiro
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