quinta-feira, 4 de novembro de 2010

MUNDO ANIMAL Há uns dois anos atrás, encontrei no meu quintal, uma ave caída. Eu, que como ornitólogo sou um excelente torneiro mecânico, primeiro tentei classificar o bípede voador. Não, não era um pardal nem uma pomba, pois esses eu conheço de longa data. Não era um jaburú, que os vi muitos no pantanal e o menorzinho tinha pelo menos 2 metros de envergadura. Esse media uns 2 palmos de comprimento e não tinha o pescoço vermelho. O bico do bicho era adunco e ele tinha garras. Seria um filhote de condor?Pouco provável nesta altitude. Uma águia careca? Muito longe da terra do Kojak e do Yul Bryner, esses sim, devidamente carecas. Quem sabe um carcará retirante, fugindo da seca? Não, há muito tempo essa moda acabou. Melhor ficar por lá e reivindicar um benefício. Bom, resolvi focar nos emplumados que, acredito, gorgeiam por estas terras em que "non ducor,duco". Falcão Peregrino? Hárpia? Águia cinzenta? Coruja? Gavião de Penacho? Gavião?.Lembrei que , aqui em São Roque vivia um personagem apelidado "Dito Gavião", que,rivalizava com "Dita Galinha", e o "Homem do Saco" nos pesadelos das crianças da época. A diferença desses personagens para o Boitatá, mula sem cabeça e sacis era que esses últimos,temíamos, mas nunca vimos, enquanto os primeiros, bastava um deles virar a esquina para a turma toda correr para a segurança da casa mais próxima. Hoje, perdi o medo e a esperança de encontrar um, tanto dos reais quanto dos folclóricos, para pedir desculpas pelos nossos temores, totalmente infundados. Bem, voltando ao "avoante" , usei a única técnica que conhecia para tentar fazer com que ele seguisse seu caminho e procurasse seus pais, filhos, sei lá se era casado, sua esposa. Saí correndo atrás dele, batendo os braços e gritando "XO!XO! XO!" Com esse procedimento ridículo, além de descartar a hipótese de ser uma galinha, pois isso sempre funcionou com as nossas simpáticas penosas, principais fornecedoras de ovos e omeletes, que nessa hora saem correndo fazendo o maior escarcéu, descobri que ele(a) tinha algum problema técnico,pois além de não voar(como as galinhas,sei, também não o fazem), simplesmente se recolheu, num canto do corredor e ali ficou, tímida e muda(não era Bem Te Vi,que não sei se é tímido, mas grita pra caramba) . Não lembro mais da seqüência nem dos personagens, mas chegaram reforços, um monte de gente e o animal foi confinado numa caixa, providenciamos água,pão,alface e um pedaço de mortadela(a água é fundamental para a sobrevivência de qualquer espécie, o pão é um excelente acompanhamento, tanto para os vegetarianos como para os carnívoros). Levamos numa clínica veterinária, que atestou que a ave estava em boas condições, apesar do estresse. Mil palpites depois, ligamos para a Polícia Florestal e anunciamos a captura do descendente do pterodátilo e estávamos que nem aquele cachorro que corre atrás do carro e não sabe o que fazer a hora que o carro para. Veio a viatura, olharam o indivíduo(quando a viatura vem, é sempre indivíduo, ou elemento) e diagnosticaram: " é um curiango muito comum nesta região". Quer dizer, vieram,viram e desprezaram.Mas não venceram. Contestei e me achei no direito de pedir uma segunda opinião. "É, acho que é um curiango, mas vamos levar para o zoo de Sorocaba, onde podem classificá-lo melhor". Ah bom.Só recomendei que cuidassem bem dele na viagem e não, não quero saber o resultado final sobre a espécie a que ele pertence.Com todo o respeito aos curiangos, que não conheço,e em homenagem aos personagens a quem temia na infância, prefiro perpetuar o mito que um dia, um gavião errante, veio demonstrar que aquele temor que tínhamos na época, na realidade foi criado por adultos.Era puro preconceito. Por que eu lembrei do ser emplumado? Explico: Hoje, houve uma nova invasão do nosso espaço aéreo. No caso, rasteiramente. Novo ser, desta vez, apode, resolveu se infiltrar em nosso pacato lar. Imaginem o bafafá! Uma serpente,vindo sei lá de onde e nem por que meios, se instalou em meu banheiro predileto, aquele onde religiosamente às 7 hs da manhâ, horário de verão oficial, respondo aos chamados fisiológicos. Quais minhas opções? Lembrei dos meus tempos de escoteiro(na realidade nunca passei da categoria "Lobinho",ou seja aspirante a Escoteiro) O manual do Escoteiro Mirim ensinava: Verifique se a cobra é venenosa, observando se sua cabeça é triangular, se o rabo afina repentinamente, se tem escamas, etc . Bom, não seria mais fácil se elas viessem com código de barras ,com leitura à distância, pois ela não vai ficar esperando você decidir se pede desculpa por ter-lhe incomodado ou joga o manual do escoteiro na sua cabeça. Mas lá também ensinava: "Caso a víbora seja venenosa e você estiver acuado, procure primeiro acertá-la com um porrete (MEU REINO POR UM PORRETE) bem no meio de sua espinha dorsal, que tirará totalmente sua capacidade de dar o bote e em seguida, acerte o porrete ou uma pedra(UMA PEDRA, PELO AMOR DE DEUS, QUE MEU REINO JÁ TROQUEI POR UM PORRETE) na cabeça do réptil(PS :DEUS, NÃO ESQUEÇA DE ME DAR A PONTARIA)" Bem didático. Minhas opções: Capturá-la viva.Não consigo. É muito complicado e não tenho aquele alicatão comprido que os homens da TV têm. Agitar os braços gritando XO XO XO, não funcionou nem com o Gavião-curiango, imagine com a prima da Anaconda. Só se ela morresse de rir. Posso pegar um pau, entrar no banheiro, matar a cobra e mostrar o pau. Não seria o meu primeiro "cobricídio". Mas idéia de ficar mostrando o pau por aí também não me agradou.. Pense nas conseqüências: Banheiro todo ensangüentado, teria que lavar. Teria que jogar o corpo da cobra em algum lugar. O famoso pau , no caso uma vassoura,poderia ficar inutilizado. Imaginei as manchetes : "Aposentado é preso ao tentar se livrar do cadáver do animal silvestre em lixão" "Idoso confessa ter dado pelo menos 15 cacetadas na cabeça do reptil" "Perícia comprova: Desempregado lavou cena do crime com sabão em pó, para ocultar indícios" Aí entra o Datena: " Arma do crime é encontrada pendurada no porta vassouras da esposa do suspeito, atrás da porta da cozinha. Põe o safado na tela". Ainda bem que não quebrou a vassoura.Mas não posso esquecer da blusa prá esconder o rosto. Foi aí que decidi. Peguei meu celular e liguei 193. Os bombeiros vieram, encaixotaram e levaram o ofídio embora. Também não me interessei em saber se era uma cobra d'agua ou uma jararaca ou talvez até uma cascavel. Espero só que eu tenha contribuído para que ela, assim como o suposto curiango gavião, sobrevivam e mantenham a espécie, num habitat que lhes seja propício. Desde que esse habitat seja bem longe da minha casa .

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